sábado, 22 de dezembro de 2012

José Fanha

Foi na "Visita da Cornélia", Agosto de 77, que José Fanha declamou pela primeira vez este poema "que tem sido uma ponte calorosa com tanta, tanta gente".

EU SOU PORTUGUÊS AQUI

Eu sou português
aqui
em terra e fome talhado
feito de barro e carvão
rasgado pelo vento norte
amante certo da morte
no silêncio da agressão.

Eu sou português
aqui
mas nascido deste lado
do lado de cá da vida
do lado do sofrimento
da miséria repetida
do pé descalço
do vento.

Nasci
deste lado da cidade
nesta margem
no meio da tempestade
durante o reino do medo.
Sempre a apostar na viagem
quando os frutos amargavam
e o luar sabia a azedo.

Eu sou português
aqui
no teatro mentiroso
mas afinal verdadeiro
na finta fácil
no gozo
no sorriso doloroso
no gingar de um marinheiro.

Nasci
deste lado da ternura
do coração esfarrapado
eu sou filho da aventura
da anedota
do acaso
campeão do improviso
trago as mãos sujas do sangue
que empapa a terra que piso.

Eu sou português
aqui
na brilhantina em que embrulho
do alto da minha esquina
a conversa e a borrasca
eu sou filho do sarilho
no gesto desmesurado
nos cordéis do desenrasca.

Nasci
aqui
no mês de Abril
quando esqueci toda a saudade
e comecei a inventar
em cada gesto
a liberdade.

Nasci
aqui
ao pé do mar
de uma garganta magoada no cantar.
Eu sou a festa
inacabada
quase ausente
eu sou a briga
a luta antiga
renovada
ainda urgente.

Eu sou português
aqui
o português sem mestre
mas com jeito.
Eu sou português
aqui
e trago o mês de Abril
a voar
dentro do peito.

http://queridasbibliotecas.blogspot.pt/2007/10/eu-sou-portugus-aqui.html

Foi lançado em disco. 

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Vaca Margarida

“Zip-Zip” terminou no fim de 1969, mais precisamente em 29 de Dezembro. Raul Solnado fazia então dois espectáculos por dia. Ao sábado era a lufa-lufa das gravações do “Zip-Zip” no Teatro Villaret, realizadas sem ensaio prévio. Na TV participava nas entrevistas e fazia, também, rábulas, que eram muito apreciadas pelo público. A seguir, rumava ao teatro. Mas “Zip-Zip” tinha que ter um fim. “Queríamos que o programa não cansasse”, revela hoje Solnado. Os protagonistas concluíram que estava na altura certa de dar por finda uma experiência que se encontrava em plena fase de êxito.

 Solnado “inventou” o concurso “A Visita da Cornélia”, juntamente com Fialho Gouveia, durante um jantar. A vaquinha Cornélia, que ajudava Raul Solnado a manter a animação no concurso “A Visita da Cornélia”, exibido pela RTP em 1977, estava inicialmente para se chamar Margarida. Mas como em Portugal há muitas Margaridas, teve que ser escolhido outro nome, para não ferir susceptibilidades.

Solnado conta-nos esta curiosidade sabendo do que fala. De facto, a ideia de “A Visita da Cornélia”, um concurso em que pela primeira vez os participantes eram convidados a fazer prova da sua habilidade nas artes da representação e da interpretação musical, brotou do próprio Raul Solnado, em conjunto com Fialho Gouveia. Foi durante um jantar num conhecido restaurante lisboeta, “O Polícia”, conforme Solnado recorda hoje, que os dois conhecidos apresentadores televisivos cozinharam “o esquema do programa”. Os resultados da confecção revelaram-se brilhantes. A qualidade e talento de alguns dos participantes foi de tal ordem que os telespectadores falavam durante toda a semana no episódio anterior e não dispensavam a exibição do seguinte.

Segundo Solnado, a ideia surgiu pela necessidade, sentida por ele próprio e por Fialho Gouveia, de “fazer um programa que incentivasse o convívio da generalidade das pessoas”. Desejavam ambos criar um produto televisivo que pudesse constituir um virar de página sobre as feridas abertas pelos tempestuosos acontecimentos políticos de 1974-5. “Cumprimos os nossos objectivos”, conclui hoje Solnado, cujas rábulas com a vaquinha Cornélia constituíam uma das mais-valias do inspirado programa.

Antes do arranque, o título do concurso constituía um verdadeiro problema. Solnado não se recorda hoje como surgiu o nome de Cornélia para substituir o de Margarida. “Foi ao calhas!”, arrisca. E conta que uma vez, quando o concurso já estava em exibição, foi interpelado por uma alemã que vivia no Porto, que lhe disse: “O senhor mudou a minha vida!” O nome dela: Cornélia. Estava bem disposta e muito feliz por ter o nome de uma personagem muito popular de um programa muito popular, apresentado por um actor muito popular. Em “A Visita da Cornélia”, o apresentador mantinha um diálogo muito animado com uma vaquinha.

José Luís Feronha / Correio da Manhã, 05/12/2002

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Tareka e Tozé Martinho


Tareka, é assim que é conhecida desde que apareceu com o filho a fazer um dos mais brilhantes pares da saudosa "Cornélia", dá vida a Clarice em "Olhos de Água", mãe de Duarte, o dividido dono da oficina de restauro. "Esta personagem tem 100 por cento a ver comigo. Sou muito mãe-galinha, nunca me escusei a dar um açoite como também dou 40 mil beijinhos", desabafa, feliz com os cinco filhos que educou.

Mãe de Tozé Martinho, actor e autor da novela, Tareka teve três filhos do primeiro casamento e dois do segundo, sendo um deles a escritora Ana Maria Magalhães, co-autora dos famosos livros juvenis, "Uma Aventura". "Os meus filhos adoram-se entre si, são amicíssimos. Para isso é fundamental o ambiente que os pais criam em casa", sublinha.

Talvez por isso, Tozé Martinho, autor de inúmeras telenovelas, escreve para a mãe papéis de grande doçura. "É a imagem que o meu filho tem de mim, nunca fui uma mãe agressiva, e quando leio o texto consigo entender logo onde ele quer chegar." Cumplicidades de mãe e filho.

Apaixonada pela vida artística desde muito cedo, Tareka recorda com saudade as festas da sua infância em que ela e os irmãos não perdiam uma oportunidade de representar e cantar. "Sempre alimentámos muito a parte artística. Em casa da minha avó, faziam-se saraus musicais em que se cantava e recitava."

Já casada, gravou discos com Shegundo Galarza em Berlim e, logo de seguida, foi convidada para protagonizar um filme. "Pouco depois, o meu primeiro marido morreu e a minha vida foi peneirada através dos meus filhos. É por isso que o Tozé gosta de me pôr aqui porque sabe que eu abdiquei de muita coisa por eles." Ao ponto de nem ter assistido à estreia do seu filme em Berlim para estar em Lisboa para a festa do seu oitavo aniversário.

Profissional a sério

Hoje leva o prazer de representar tão a sério que se porta como uma "profissional a sério", como gosta de ironizar. "Sei sempre o papel, ensaio em casa sozinha, a andar para trás e para a frente e depois ao espelho para ver se as expressões resultam." Um trabalho que a ocupa muito mas também lhe dá muito prazer.

Apesar do desgaste físico, já que vive em Salvaterra de Magos e tem de se deslocar todos os dias para o estúdio, em Bucelas, Tareka reconhece que decorar papéis é um bom treino. "Assim como a ginástica melhora a forma física, estudar é bom para a memória."

Para já, a melhor compensação tem sido o resultado das audiências, para além de trabalhar ao lado de grandes actores como Eunice Muñoz, Ruy de Carvalho e António Pedro Cerdeira. "As pessoas abordam-me na rua para me darem os parabéns, porque gostam muito da telenovela."

Palmira Correia / Máxima, 14/09/2001

Tozé Martinho apaixonou-se pela representação na adolescência e o concurso ‘A Visita da Cornélia' foi uma viragem na sua vida..

- Onde foi buscar a paixão pela representação?

- Aos 14 ou 15 anos entrei numa peça de teatro na escola onde andava e ficou para sempre essa paixão. Ainda hoje sei partes do texto dessa peça. Nessa altura, senti que aquilo que estava a fazer ia ser a minha vida, e foi. Aos 18 anos acabei por pedir à minha mãe para ser actor, mas fui para a tropa.

- O concurso ‘A Visita Cornélia' foi um ponto de viragem?

- Sim, porque quando acabou o concurso, o Raul Solnado teve uma conversa comigo e incentivou-me a seguir a carreira de actor. Mas nessa altura eu ainda não podia, porque estava a tomar conta de uma propriedade da família em Trás-os-Montes.

Por: Sabrina Hassanali / CM

PERFIL

Tozé Martinho nasceu a 5 de Dezembro de 1947, em Lisboa, filho de Maria Teresa Ramalho (Tareka) e de António Caetano Oliveira Martinho. É irmão da escritora Ana Maria Magalhães e do cirurgião plástico Manuel Maria Martinho, e meio-irmão de Teresa Margarida e Helena Rita Ramalho. Casado com Ana Rita Martinho, é pai de Rita, jornalista, e António Martinho, operador de câmara. O neto Gonçalo tem 14 anos. Tozé Martinho estudou Direcção de Televisão e Cinema em Nova Iorque. Escreveu ‘Dei-te Quase Tudo’, ‘Amanhecer’, ‘Todo o Tempo do Mundo’, entre outras.

CM

 imagem (Facebook)

Tozé Martinho + Tareca e  restante família no espectáculo de solidariedade Pirâmide (fim de ano na RTP) em 1978:

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Caderneta




A VISITA DA CORNÉLIA
COLECÇÃO DE 235 CROMOS
EDIÇÃO CLUBE DO CROMO
1977

http://www.misteriojuvenil.info/detalhes.php?id=740

http://santanostalgia.com/?p=387

sábado, 1 de setembro de 2012

Os primeiros

Corria o ano de 1977 (...) a RTP anunciava a entrada em cena de um concurso em moldes completamente inovadores para a época: A VISITA DA CORNÉLIA. Para nele se participar era preciso mandar um postal dos correios com o nome do par que desejava concorrer. Era eu então professora na Escola Preparatória do Castelo da Maia. No meio de uma conversa de aula, surgiu, entre os alunos, a ideia de me porem como candidata ao concurso. Entretanto, sem nada nos dizer, o meu sogro, enviava também um postal.

Julgo que foi o dos meus alunos que foi sorteado. E perante o meu espanto eu ouvi, anunciado na Tv que seria, juntamente com o Augusto, um dos 10 casais a serem testados para a primeira apresentação do concurso. E assim lá fomos os dois passar um fim-de-semana a Lisboa e mostrar o que sabíamos no campo da dança, do canto, do teatro, da literatura e de mais umas quantas disciplinas.

Para espanto nosso acabamos por ser escolhidos e passar à eliminatória, a realizar na segunda-feira seguinte, em que ficámos em 2º lugar, a seguir ao saudoso poeta e jornalista Fernando Assis Pacheco e sua cunhada, a Carminho Ruela Ramos. Foi durante esses 3 dias que eu conheci pessoalmente o Raul Solnado. Não tanto o Solnado como cómico, mas como Homem. Por mais à vontade que nos tentássemos sentir, aquele meio não era o nosso. E foi então que se revelou a atitude humana do Raul que tentou sempre ambientar-nos e mostrar-nos como, mesmo sem sermos profissionais, tínhamos direito próprio a um lugar ali.

E porque os meus alunos do Castelo da Maia não nos viram actuar, por um corte de energia local, organizaram-se, mandaram mais postais e fomos novamente chamados. Fomos os primeiros a repetir a ida ao concurso, o que muito agradou ao Raul. Lembro-me que, havendo nessa sessão concorrentes de alto gabarito, ele, receando que não fossemos escolhidos, não assistiu às nossas provas na sala de espectáculos, mas sim roendo as cortinas que a separavam do pequeno foyer do Villaret. E no final, já connosco como concorrentes definitivos, foi a festa, que se prolongou pela noite de Lisboa, algo que nós desconhecíamos e que nos surpreendeu.

Em finais do mesmo ano foi decidido fazer, com fins beneficentes, dois espectáculos no Porto. Isto já ele nos dissera quando, durante uma estadia no Sá da Bandeira com uma peça, viera a nossa casa no dia dos meus anos e de um dos seus filhos, por coincidência no dia seguinte aos anos dele. E juntos brindámos pelas 3 efemérides. As sessões de Porto mais reforçaram a nossa ligação com ele e com o Zé Fialho. E tivemos oportunidade de avaliar o grande coração daquele homem. Era de uma humildade espantosa e tinha um sorriso que abria o coração mais empedernido. Revi-o anos mais tarde, já depois do primeiro enfarte. Notei-lhe alguma decadência. Mas ainda havia um brilho especial naquele seu olhar.

Blog Gaivota Maria, 08/08/2009

Pois é verdade! Eu fui a primeira concorrente que espremeu as tetas à Cornélia. A morte do Raul trouxe-me muitas lembranças de momentos felizes e sobretudo dele próprio que foi alguém que enriqueceu a nossa vida. Era um "louco" bom, generoso, que eu conheci no esplendor da sua vida (ainda não fizera 50 anos). Ele que queria que todos nós fossemos felizes, deu-nos a oportunidade de partilharmos alguma dessa felicidade com eles. Devo essa aos meus alunos da Preparatória do Castelo da Maia.

O Raul é uma feliz memória da minha vida. Conhecê-lo e conviver com ele foi um privilégio. E o convívio só não foi mais longe porque nós não pudemos aceitar o convite que nos fez para participarmos numa revista com ele. Esse convite foi depois reciclado e quem o aproveitou foi o Tó Zé Martinho.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Wikipédia

Quando José Niza foi nomeado director de programas da RTP, em 1977, já existia a ideia de um concurso da autoria de Raul Solnado e de Fialho Gouveia. Numa reunião de trabalho, em casa de Solnado, depois do jantar até às seis da manhã do dia seguinte, resolveram tudo: realização, produção, cenografia, direcção musical, júri, etc

De 6 de Junho a 28 de Novembro de 1977, sempre às 2ªs feiras, foi transmitido o concurso "A Visita da Cornélia" que foi um dos grandes sucessos televisivos desse ano, conjuntamente com a telenovela "Gabriela - Cravo e Canela". Houve ainda duas sessões extra-concurso no Porto.

Dos 30 candidatos, tirados à sorte através dos boletins enviados, retinham apenas três pares.

Cada par tinha de cumprir 10 provas. As provas dividiam-se por três grupos disciplinares, que valorizavam a aprendizagem, a destreza e a criatividade. As provas criativas como canto, dança, teatro ou quadra eram pontuadas pelo júri fixo. Nas outras provas era necessário deitar bonecos a baixo, responder a perguntas sobre um livro, descobrir diferenças entre dois desenhos, cultura geral, código da estrada, constituição Portuguesa ou Direitos do Homem.

Os concorrente mais pontuados iam para um pódio até serem ultrapassados pelos novos concorrentes. Na 12ª sessão, o publicitário (e também, músico) Gonçalo Lucena foi ultrapassado por José Fanha (13 semanas no pódio) e pelo músico Hugo Maia de Loureiro.

Na 23ª sessão apareceu Vasco Raimundo que ultrapassou José Fanha e Rui Guedes. Acabou por ocupar o pódio até à finalíssima de 28 de Novembro de 1977.

São muitos os momentos marcantes do programa, desde a imitação de um macaco por Hugo Maia de Loureiro, o manifesto anti-lira de Pitum, a declamação de "Eu Sou Português Aqui" por Fanha ou a dança de Tozé Martinho e de Tareka.

O sucesso do programa levou à edição de uma revista semanal, a "Vacavisão" que saiu pela primeira vez em 21 de Junho de 1977. Também houve uma colecção de cromos e um single com versões de temas dos Gemini e José Cid.

http://pt.wikipedia.org/wiki/A_Visita_da_Corn%C3%A9lia

http://www.oribatejo.pt/2009/08/o-meu-amigo-raul/

Na década de 1990 foi apresentado na RTPo concurso "A Filha da Cornélia" mas sem o mesmo impacto.

Raul Calado foi um dos responsáveis de concursos como "Retrato de Família".

sábado, 21 de julho de 2012

Infopédia

A Visita da Cornélia

O concurso de televisão "A Visita da Cornélia" foi transmitido pela primeira vez em 1977 com a apresentação de Raul Solnado e esteve no ar na Radiotelevisão Portuguesa durante vários anos, sempre com boas audiências. O programa era gravado num teatro perante a presença de público.

Os concorrentes para participar no concurso tinham de o fazer em equipa e em grande parte das vezes eram famílias inteiras que apareciam. Depois tentavam superar uma série de provas apresentadas pelo ator cómico Raul Solnado. As provas eram constituídas por tarefas como, por exemplo, fazer uma representação teatral ou declamar poesia. Na prova de teatro era dado um texto às equipas concorrentes e depois cada uma delas representava essa pequena peça da maneira que entendesse. O trabalho da equipa era então avaliado por um júri formado por cinco pessoas, tido como muito rigoroso na apreciação das qualidades dos concorrentes. Vencia a equipa que somasse mais pontos no conjunto de todas as provas do programa.

Alguns dos elementos do júri já eram figuras conhecidas do grande público, como Paulo Renato, Luís de Sttau Monteiro e Maria Leonor, mas outros ficaram famosos graças ao programa. Tal sucedeu com Maria João Seixas e [Raul Calado] Jorge Calado.

Mas, assim como os elementos do júri, também alguns dos participantes ganharam fama a nível nacional. Um dos casos mais conhecidos foi o da família Pitum, que apareceu várias vezes no concurso para somar pontos e vencer, destacando-se, entre eles, o pai, graças ao seu humor imaginativo. Outros concorrentes que se tornaram famosos foram o jornalista e escritor Fernando Assis Pacheco e José Fanha. Este último transformou-se em argumentista de séries cómicas de televisão depois de se ter destacado em "A Visita da Cornélia" como poeta e recitador.

Para além das provas e tarefas a desempenhar pelos participantes, o programa tinha também momentos de humor, onde Raul Solnado contracenava com a boneca da Vaca Cornélia.

Já nos anos 90, a RTP tentou recriar o espírito do concurso apresentando "A Filha da Cornélia", mas não obteve sucesso.


Como referenciar este artigo:
A Visita da Cornélia. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2012. [Consult. 2012-07-11].
Disponível na www: <URL: http://www.infopedia.pt/$a-visita-da-cornelia>.

domingo, 24 de junho de 2012

A Filha da Cornélia

Cornélia: a segunda geração

O concurso que teve mais êxito na televisão portuguesa vai regressar à RTP, muito em breve. Nascerá, então, A Filha da Cornélia. Para concorrer com concursos «que são uma chatice». Mas, na política, nada é como em 1977. «Isto agora está mais calmo». No dia em que a Quatro estreia a revelação dos concursos em Espanha, o primeiro concurso a dedicar-se ao insólito e a exigir provas de criatividade, regressa-se à memória do mais criativo de todos, nos ecrãs portugueses. A Visita da Cornélia. Enquanto a filha dela não chega.

Fialho Gouveia e Raul Solnado -- a direcção da RTP com eles -- decidiram pegar na fórmula de A Visita da Cornélia e actualizá-la em versão anos 90. A Filha da Cornélia está quase a aparecer, tendo no júri o produtor Thilo Krassman, as jornalistas Catarina Portas e Inês Serra Lopes e o pintor/encenador/figurinista/egiptólogo Paulo Guilherme d'Eça Leal.

Talvez o regresso não seja apenas mérito da vaca-mãe. Talvez porque um mínimo de senso obrigue a verificar, como faz Fernando Assis Pacheco, que «os concursos de hoje são uma merda». Poderia chamar-se-lhes «fraquinhos ou outra coisa, mas é esse o termo». Quando muito, permite-se um eufemismo implacável: «Como se diz em Coimbra, `são abaixo-de-cu-de-cão e vários furos abaixo de polícia'» [sem ofensa; citam-se, vagamente, as graças do Código da Praxe da cidade].

Fernando Assis Pacheco, escritor, jornalista da "Visão" e, noutras vidas, «participante involuntário» em A Visita da Cornélia, recorda as «sete semanas de loucura» em que ocupou o pódio do concurso. Cornélia à parte, as suas funções de chefe-de-redacção do "Diário de Lisboa" obrigavam-no a não almoçar à segunda-feira. «Ia a correr do trabalho para o Teatro Villaret». E tudo tinha começado por cinco postais, enviados à traição pela cunhada de Assis Pacheco, Carla Ruella Ramos, em nome dele, para A Visita da Cornélia.

«Telefonou-me o Raul Solnado. Fiquei azul e depois verde. Mas fui, porque não queria ser antipático para a minha cunhada». E, além disso, «havia a coisa inolvidável que era o público. Para lá das luzes de palco e da cortina de escuridão, adivinhava-se o público». O facto de os seus cupões terem sido seleccionados não dava garantia de acesso imediato à Visita da Cornélia. Havia ainda que passar «por uma prova de desembaraço musical e cultural». Assis Pacheco passou, até porque «já tinha algum palco e alguma televisão».

O modelo da filha

Com A Filha da Cornélia não é provável que alguém seja sujeito a estas desventuras, porque o modelo é diferente. Como explica Fialho Gouveia -- agora o apresentador, em vez de Raul Solnado -- a selecção faz-se por cassete. «Não há sorteio de postais nem nada. As pessoas enviam uma cassete com a gravação do que se propõem fazer nas provas de canto, interpretação musical e imitação. A escolha não é por sorte, é por mérito».

Na passagem do concurso de mãe para filha, nada se perde, pouco se cria, tudo se transforma. Raul Solnado, que antes era o apresentador, vai aparecer num momento escolhido de cada edição de A Filha da Cornélia, «numa rubrica que deverá ser de humor». Os concorrentes não são individuais (com um convidado), são equipas de três pessoas, com «éne» convidados no Cinema Europa. Quanto a provas, há as obrigatórias -- representação, questionários, texto e prova livre -- e as de opção (podem ser realizadas por convidados da equipa) -- canto, interpretação musical, imitação e dança.

O contexto em que se desenvolve a nova Cornélia -- aquilo que em 1977 estava do lado de fora do Villaret e em 1994 não se encontra no exterior do Cinema Europa -- é que mudou, em definitivo. «Isto agora está mais calmo». Filho Gouveia quer dizer que «isto agora» já não é a luta encarniçada entre esquerda e direita como era; já não é a última ressaca do Verão Quente e das eleições para a Presidência da República; já não é a época de chumbo da rede bombista e dos encapotados da MDLP-ELP; já não é o tempo em que, diz o arquitecto Keil do Amaral, «punha-se com bastante facilidade uma bomba debaixo dos carros das pessoas de quem não se gostava...»

A memória da mãe

Keil do Amaral (universalmente «Pitum»), arquitecto que trabalha actualmente com a Câmara de Loures, foi outro dos participantes na Visita da Cornélia. Recorda como alguns concorrentes foram convidados a fazer dois espectáculos no Porto -- tal a fama! --, já depois de terminado o concurso: «Andávamos com guarda-costas». É que A Visita da Cornélia decorreu «num contexto político diferente. Existia esse confronto [esquerda-direita] e de que maneira! Ainda havia coisas fortes para dizer e isso ajudou à atenção do público».

O arquitecto acrescenta que «muitas vezes havia só ideologia pura nas claques dos concorrentes. Nada mais estava em jogo». Aliás, A Filha da Cornélia vai dar prémios substanciais em dinheiro (há uma «tarifa» para os pontos obtidos), mas em 1977 concorria-se «por um berbequim, ou na melhor das hipóteses uma viagem a Londres. Lá na Câmara de Loures há um senhor simpático que já ganhou dois automóveis nos concursos de agora».

Na Cornélia, houve embates «políticos» históricos. Fernando Assis Pacheco recorda «um incidente desagradável comigo e com o Gonçalo Lucena, um mano-a-mano». O jornalista explica que «na `Gente' do Expresso, anunciava-se o embate com o Gonçalo Lucena como `O PCP contra o CDS'. Fiquei com pele de galinha. Deve ter sido o Marcelo Rebelo de Sousa a escrever». Recorda, depois, «como só a muito custo consegui arranjar, nessa sessão, uma dúzia de lugares para os meus apoiantes na plateia», porque «o resto da lotação [que é exactamente de 444 lugares] tinha sido comprado pela empresa em que trabalhava na altura Gonçalo Lucena".

As conotações políticas eram mais que muitas. Fialho Gouveia explica que se estendiam até aos membros do júri, «e dizia-se às vezes que o elemento 'x' tinha dado a pontuação 'y' porque era de esquerda e o concorrente era de direita ou vice-versa». Fernando Assis Pacheco, que esteve no concurso durante sete semanas, inventou uma diversão. «Levámos um boi, a que chamámos o Tenente-Cornélio, um bicho malvado e mal educado, sobretudo com as hierarquias militares». Para seu espanto, Assis Pacheco leu em «O Dia», pouco depois, uma manchete em que se dava a entender que o comandante de uma região militar se preparava para emitir uma nota contra o concurso, ofendido com o boi-Cornélio.

Em 1977, A Visita da Cornélia tinha, apesar de tudo o que lhe carregaram aos ombros, a intenção de «proporcionar uma festa de confraternização para os espectadores». Espera-se muito da Filha da Cornélia. Como diz Keil do Amaral, «os concursos agora não têm piada nenhuma porque predomina a sorte. Faz falta um concurso de competência». O arquitecto duvida que, por bom que seja, A Filha da Cornélia deixe margem para a «espontaneidade e originalidade dos concorrentes. No primeiro, fomos nós que instituímos as rábulas enquanto ocupávamos o pódio».

Pedro Rosa Mendes, Público, 03/02/1994

FDC

terça-feira, 5 de junho de 2012

A Visita da Cornélia


Os portugueses, por norma, estão habituados a maldizer de tudo que nos diz respeito.

A verdade é que, mesmo no tempo em que não tinha concorrência, a nossa RTP conseguia brindar-nos com belas noites de boa televisão.

Houve programas que ficaram na nossa memória e que ainda hoje (os que se lembram) acham muitíssimo bons.


Trata-se do Programa da RTP "A Vista da Cornélia", sendo autores Raul Solnado e Fialho Gouveia e apresentado por Raul Solnado.

Foi um dos programas /concurso de maior sucesso televisivo de sempre em Portugal.

O Juri era composto por Raul Calado (publicitário), Maria João Seixas (jornalista e filósofa, inesquecível pela sua gaguez), Luís de Sttau Monteiro (escritor), Maria Leonor (locutora e apresentadora da RTP) e Paulo Renato (actor).

Como concorrentes salientaram-se : Vasco Raimundo (vencedor), José Fanha (Eu sou português, aqui ! ), Rui Guedes (Topo Gigio), Fernando Assis Pacheco, Gonçalo Lucena, Pitum Keil do Amaral (Egas Moniz), Tozé Martinho (dançarino), e vários outros.

Na década de 1990 a RTP teve no ar o concurso "A Filha da Cornélia" que foi apresentado por Fialho Gouveia, mas que não teve o impacto do concurso original.

Coisas da Fonte, Dezembro de 2011