sábado, 22 de dezembro de 2012

José Fanha

Foi na "Visita da Cornélia", Agosto de 77, que José Fanha declamou pela primeira vez este poema "que tem sido uma ponte calorosa com tanta, tanta gente".

EU SOU PORTUGUÊS AQUI

Eu sou português
aqui
em terra e fome talhado
feito de barro e carvão
rasgado pelo vento norte
amante certo da morte
no silêncio da agressão.

Eu sou português
aqui
mas nascido deste lado
do lado de cá da vida
do lado do sofrimento
da miséria repetida
do pé descalço
do vento.

Nasci
deste lado da cidade
nesta margem
no meio da tempestade
durante o reino do medo.
Sempre a apostar na viagem
quando os frutos amargavam
e o luar sabia a azedo.

Eu sou português
aqui
no teatro mentiroso
mas afinal verdadeiro
na finta fácil
no gozo
no sorriso doloroso
no gingar de um marinheiro.

Nasci
deste lado da ternura
do coração esfarrapado
eu sou filho da aventura
da anedota
do acaso
campeão do improviso
trago as mãos sujas do sangue
que empapa a terra que piso.

Eu sou português
aqui
na brilhantina em que embrulho
do alto da minha esquina
a conversa e a borrasca
eu sou filho do sarilho
no gesto desmesurado
nos cordéis do desenrasca.

Nasci
aqui
no mês de Abril
quando esqueci toda a saudade
e comecei a inventar
em cada gesto
a liberdade.

Nasci
aqui
ao pé do mar
de uma garganta magoada no cantar.
Eu sou a festa
inacabada
quase ausente
eu sou a briga
a luta antiga
renovada
ainda urgente.

Eu sou português
aqui
o português sem mestre
mas com jeito.
Eu sou português
aqui
e trago o mês de Abril
a voar
dentro do peito.

http://queridasbibliotecas.blogspot.pt/2007/10/eu-sou-portugus-aqui.html

Foi lançado em disco. 

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Vaca Margarida

“Zip-Zip” terminou no fim de 1969, mais precisamente em 29 de Dezembro. Raul Solnado fazia então dois espectáculos por dia. Ao sábado era a lufa-lufa das gravações do “Zip-Zip” no Teatro Villaret, realizadas sem ensaio prévio. Na TV participava nas entrevistas e fazia, também, rábulas, que eram muito apreciadas pelo público. A seguir, rumava ao teatro. Mas “Zip-Zip” tinha que ter um fim. “Queríamos que o programa não cansasse”, revela hoje Solnado. Os protagonistas concluíram que estava na altura certa de dar por finda uma experiência que se encontrava em plena fase de êxito.

 Solnado “inventou” o concurso “A Visita da Cornélia”, juntamente com Fialho Gouveia, durante um jantar. A vaquinha Cornélia, que ajudava Raul Solnado a manter a animação no concurso “A Visita da Cornélia”, exibido pela RTP em 1977, estava inicialmente para se chamar Margarida. Mas como em Portugal há muitas Margaridas, teve que ser escolhido outro nome, para não ferir susceptibilidades.

Solnado conta-nos esta curiosidade sabendo do que fala. De facto, a ideia de “A Visita da Cornélia”, um concurso em que pela primeira vez os participantes eram convidados a fazer prova da sua habilidade nas artes da representação e da interpretação musical, brotou do próprio Raul Solnado, em conjunto com Fialho Gouveia. Foi durante um jantar num conhecido restaurante lisboeta, “O Polícia”, conforme Solnado recorda hoje, que os dois conhecidos apresentadores televisivos cozinharam “o esquema do programa”. Os resultados da confecção revelaram-se brilhantes. A qualidade e talento de alguns dos participantes foi de tal ordem que os telespectadores falavam durante toda a semana no episódio anterior e não dispensavam a exibição do seguinte.

Segundo Solnado, a ideia surgiu pela necessidade, sentida por ele próprio e por Fialho Gouveia, de “fazer um programa que incentivasse o convívio da generalidade das pessoas”. Desejavam ambos criar um produto televisivo que pudesse constituir um virar de página sobre as feridas abertas pelos tempestuosos acontecimentos políticos de 1974-5. “Cumprimos os nossos objectivos”, conclui hoje Solnado, cujas rábulas com a vaquinha Cornélia constituíam uma das mais-valias do inspirado programa.

Antes do arranque, o título do concurso constituía um verdadeiro problema. Solnado não se recorda hoje como surgiu o nome de Cornélia para substituir o de Margarida. “Foi ao calhas!”, arrisca. E conta que uma vez, quando o concurso já estava em exibição, foi interpelado por uma alemã que vivia no Porto, que lhe disse: “O senhor mudou a minha vida!” O nome dela: Cornélia. Estava bem disposta e muito feliz por ter o nome de uma personagem muito popular de um programa muito popular, apresentado por um actor muito popular. Em “A Visita da Cornélia”, o apresentador mantinha um diálogo muito animado com uma vaquinha.

José Luís Feronha / Correio da Manhã, 05/12/2002