domingo, 18 de dezembro de 2011

Entrevista a Raul Calado

“Eu acho que a Cornélia foi um programa profundamente didáctico do ponto de vista político, não porque se fizesse lá política, até acho que se lá fez muito pouca política, mas porque se ensinaram as pessoas de que era possível sobre o mesmo assunto ter cinco opiniões diferentes e isto abria as pessoas que estavam em casa para também terem a sua opinião. Lamento que a  RTP, que deveria ser um serviço público, não o faça todas as semanas.”,  confessou Raul Calado à reportagem do “CS”.                                                

C.S. –O que é que ainda recorda de positivo do programa  a “ Visita da “Cornélia”?

Raul  Calado – Há recordações espectaculares.

C.S. -  Hoje viveu um dia diferente?

Foi um prazer vir a Canas de Senhorim e voltar a encontrar  pessoas amigas, porque a malta da “Cornélia” não se vê todos os dias. Da “rapaziada” que cá  apareceu, fiquei mais amigo de uns do que de outros, a Lucilina, por exemplo, trabalhou profissionalmente comigo durante seis a oito anos, do Fanha fiquei muito amigo. Há outros ... do Assis Pacheco, com certeza, nunca me esqueço. É sempre um prazer encontrar as pessoas, mas seguramente alguns deles não os vejo há anos.   

C.S. –  A “Cornélia” modificou a sua maneira de estar?

R. C. - Não modificou nada! Eu sou realmente aquilo a que se chama um “desgraçado”, ou seja, fiz o meu curso do qual nunca me servi, porque em  toda a minha vida trabalhei em publicidade. Eu achei sublime que as pessoas que foram à “Cornélia”, (há pessoas que não valiam nada e foram lá pessoas que valiam muito), eu acho espantoso, que pessoas que valiam muito mais do que eu, na minha opinião, tenham ido à “Cornélia” submeter-se ao meu julgamento. Está a ver.... . O Assis Pacheco  era um poeta! O Fanha era outro poeta, grandes poetas, e foram à “Cornélia” submeter-se à modesta opinião de um modesto publicitário que nunca fez nada na vida se não anúncios.

C.S. – Isso marcou-o?

R. – Claro que isso marcou-me e  ainda hoje me emociono. Penso que o júri da  “Cornélia”, foi uma das razões fundamentais do êxito do programa, porque se fossem quatro jebos, as pessoas não iam lá submeter-se à alarvidade das opiniões que eles tivessem. Eu não estou a falar da minha pessoa, estou a falar dos outros quatro. E porque lá estavam os outros quatro é que pessoas de alto nível intelectual e  cultural foram ao programa. O Arquitecto Keil Amaral não tinha participado se o júri fosse este ou aquele. Alguns concorrentes submeteram-se ao concurso porque acreditaram na capacidade, na imparcialidade, no discernimento daquele júri. Mas é emocionante para mim, na minha pequenez ter pertencido aquele júri. Eu acho que a “Cornélia” foi um programa profundamente didáctico, do ponto de vista político, não porque se fizesse lá política, até acho que se lá fez muito pouca política, mas porque se ensinaram as pessoas de que era possível sobre o mesmo assunto ter  cinco opiniões diferentes e isto abria as pessoas que estavam em casa, para também terem a sua opinião. Lamento que a RTP que deveria  ser um serviço público, não o faça todas as semanas. Esta semana que estamos a entrar devia haver na RTP programas altamente populares, altamente ouvidos, altamente engraçados ou altamente dramáticos, mas que fizessem o didactismo da democracia que é uma coisa que eu acredito. Primeiro – Se você pensar que somos o país do mundo que tem os mais graves acidentes de viação, eu diria a mesma coisa: deveriam haver programas altamente divertidos, altamente dramáticos ou altamente o que eles quisessem, mas que fizessem o didactismo do civismo na estrada, para evitar que sejamos o país com maior sinistralidade na Europa. Isto é verdade para a democracia em primeiro lugar e também é verdade para a educação cívica, é verdade para a educação musical, é verdade para tudo. A minha visão de serviço público é realmente uma coisa que sem violentar ninguém, divertindo até as pessoas, as eduque para serem cívicas na estrada, cívicos na vida do dia a dia, democratas, tolerantes, etc, etc. O serviço público é isto: é fazer bons programas, é fazer boa televisão, mas com este conteúdo, porque se não tiver este conteúdo não vale a pena. Privatizem - na e entrem na concorrência com os outros. Atenção que eu não estou a censurar as televisões privadas, estou a censurar a televisão pública, porque a televisão pública que eu pago e você paga deveria Ter um conjunto de compromissos para connosco.

C.S. – Vê alguma possibilidade de a RTP modificar a sua programação ou para isso seria necessário mudar a mentalidade dos nossos políticos?

R.- É muito complicado, nesta entrevista não lhe posso dizer. 1 - Seja qual for o governo a RTP não muda. Os governos não mandam na RTP o suficiente para puderem mudá-la. 2 – Qualquer que seja a administração que esteja na  RTP, a RTP não muda. 3 – A Gestão não é de pessoas. Se eu fosse para Presidente da RTP não mudava nada. Não era capaz, não tinha força para mudar nada, ou seja a RTP é grande de mais, existe há tempo de mais e tem lá dentro interesses conquistados, lugares conquistados de mais  para poder ser mudada. A RTP funciona em células. Não acredito que alguém a consiga mudar, agora era estimável que mudasse, isso era outro assunto. Neste momento está lá uma nova equipa, claro que o meu desejo é que consigam mudar aquilo, mas é claro que eu não acredito, não há hipótese. Não é uma questão de desejo, nem é uma questão de pessoas, há uma inércia monumental adquirida, gigantesca. Julgo que a RTP tem mais ou menos 3500  funcionários, no entanto funcionaria perfeitamente com 500 ou 600. Estes  estão completamente submergidos  pela onda de interesses dos outros 2900 que para não perderem a sua pequena parcela de poder, já mais mudarão. Eu acho extraordinário que toda a gente fala de que a RTP custa ao país muitos milhões por ano, mas ninguém vê que ela deveria fazer um serviço público. Mas o que é um serviço público?  Ninguém sabe o que é e nunca foi definido. Este trabalho nunca foi feito e nunca foi tentado fazer. Na minha opinião a RTP, durante o tempo da ditadura, desde a fundação até ao 25 de Abril, funcionou bastante melhor do que depois do 25 de Abril. Sabia-se o que é que se pretendia e funcionava bem dentro disso. Depois nunca mais se soube o que se pretendia com a RTP. Os tipos sentiram-se todos órfãos ou descomandados. Agora eu não tenho na manga solução para coisas difíceis, mas para se chegar a alguma conclusão é preciso: 1º e durante bastante tempo discutir, saber o que se pretende com o serviço público, como é que ele pode ser feito e em que ele deve incidir. No meio deste contexto todo eu dir-lhe-ia assim: A Cornélia é um feliz acaso. Foi um milagre juntaram-se a boa ideia do Raul Solnado e do Fialho  Gouveia, o júri credível e o facto de determinadas pessoas terem acreditado. Quando fui convidado para o júri não me disseram que eu tinha que fazer não sei o quê, apenas perguntaram se eu queria ou não entrar. Na Cornélia foi tudo espontâneo e por isso foi um milagre.

C.S. – A Cornélia surgiu na RTP no mesmo ano que a telenovela Gabriela, de Jorge Amado, caracterizando essa época televisiva muito positivamente. Concorda que a televisão estatal ainda não conseguiu ter tanta importância como nesse tempo?

R. C. – Repare, a seguir à Gabriela, é evidente que era difícil haver uma telenovela com o mesmo nível, porque o texto era de Jorge Amado, um bom escritor, com uma boa história e era uma novidade, isto também foi importante. Depois o que veio a seguir foi pior. A Cornélia foi a mesma coisa, foi um fenómeno. Todos os concursos que vieram a seguir foram piores. Eu hoje disse hoje aqui e é verdade, as pessoas já se esqueceram das coisas más da Cornélia, apenas se lembram do “sumo”, da “nata”, é disto que a malta se lembra.

helderambrosio.

Jornal Canas de Senhorim, 18/12/2001

sábado, 9 de julho de 2011

Lira & Pitum

Foi há 25 anos que a família de Francisco Keil Amaral (Pitum) fez furor no concurso A Visita da Cornélia, apresentado por Raul Solnado. Para Pitum, "este foi um período divertidíssimo". Ainda hoje, quando se deslocam a Lisboa, sentem que são reconhecidos pelas pessoas. Dos prémios arrecadados, usufruíram de apenas dois: um conjunto de lençóis e uma viagem de uma semana a Londres. Os restantes reverteram a favor dos Bombeiros Voluntários de Canas de Senhorim, localidade onde, na altura, passavam férias. A esta estreia televisiva seguiram-se outras participações, nos programas Vitinho e A Loja do Mestre André.

Lira Keil nasceu na Madeira, em 1937, "numa família que era uma grande misturada". "A minha mãe era da chamada fina-flor e o meu pai era de uma família muito, muito pobre do Funchal", conta Lira. O pai era "um aventureiro dado às investigações" e a mãe era "dada às culturas", por isso, quando a filha decidiu, aos 16 anos, estudar belas-artes, de imediato a apoiaram. Já em Lisboa, e com o curso tirado, casou com o pintor António Areal, contra a vontade da família. A relação quebrou-se passado nove anos, mas dela nasceram três filhas. Foi com elas que retornou ao Funchal, onde viria a ser guia turística da American Express, percorrendo o circuito entre Espanha, Marrocos e Portugal. Nessa altura, reencontrou um velho colega das belas-artes: Pitum. O arquitecto viajou para a ilha, em trabalho, acompanhado da esposa, a escultora Leonor, e dos três filhos. Lira relembra aqueles tempos: "Ele ia de férias e eu ficava com os três miúdos. Íamos passear e fazer uns programas malucos. Quando eu estava fora, eram eles que ficavam com as minhas miúdas."

Pitum, que guarda no bilhete de identidade o mesmo nome do pai, seguiu-lhe também os traços na arquitectura. A mãe, Maria Keil, galardoada em 1941 com o Prémio Sousa Cardoso, ainda hoje, com 86 anos, continua a pintar. "Ela tem umas ideias malucas. Agora, anda a desenhar uns diabos e começou a escrever uma história: a mãe diabo, o pai diabo e os filhos", refere Pitum, com orgulho sorridente. Olhando para trás, o arquitecto recorda a época em que a mãe foi considerada a renovadora da arte do azulejo, em Portugal: "Os colegas dela achavam que era um disparate, que não era coisa de artistas. Ela lá teimou. Foi ela que fez os azulejos para as estações todas [do metro] e ninguém lhe pagou." As obras do metropolitano, nessa altura, tinham um débil suporte financeiro. Ainda assim, Francisco Keil Amaral (pai) aceitou pôr de pé o projecto.

Após uma década de casamento, Pitum foi surpreendido pela viuvez. Os seus três rapazotes começaram, então, a deixar bilhetinhos debaixo da porta de Lira: "Por que é que não ficas nossa mãe?" E ficou. Entretanto, passaram-se 30 anos de aventura e sobressalto. Foi com o sétimo filho no colo (Leonor), que partiram para Moçambique, como cooperantes ligados às Nações Unidas. O contrato era de dois anos, mas não resistiram e ficaram mais quatro. Pitum trabalhava para a Secretaria de Estado da Cultura, zelando pela preservação dos edifícios da época colonial. Lira leccionava na Escola de Artes Visuais de Maputo.
O bichinho do teatro, alimentado pelo patriarca dos Keil, deu origem à Associação Cultural da Casa Velha, uma "espécie de ninho de actores". Segundo o arquitecto, este grupo foi como um rastilho, que fez eclodir várias companhias teatrais, criando alternativas aos costumeiros filmes indianos e de karaté. A Casa Velha continua erguida, preservando o espírito criativo com que aquela família impregnou a população da capital moçambicana. O agravado ambiente de guerra obrigou-os, entretanto, a comprar o bilhete de volta a Portugal. Mas, se em Moçambique se envolveram numa luta contra as dificuldades, cá, lamenta Pitum, travaram "uma luta contra a mentalidade".

Loures foi o concelho escolhido para o regresso. A par de actividades profissionais na câmara municipal, Lira e Pitum, junto com antigos colegas de faculdade, deram corpo a diversas iniciativas culturais. A exposição "Objectos Metafóricos Contemporâneos" foi um dos exemplos. Em 1994, transferiram-se para o município de Nelas, introduzindo a arquitectura, pela primeira vez, nesta autarquia. Para o interior do país, trouxeram também a vontade de sacudir mentes e abrir portas. Nestes recantos campesinos, "esta coisa da cultura mete medo às pessoas vulgares, porque acham que é uma coisa para grandes entendidos", alude Lira. Mas Pitum e a "bombeira voluntária ou escuteira atrasada" - como já chamaram à sua mulher - fizeram desabrochar, este ano, uma galeria de arte, em Canas de Senhorim, onde já estiveram expostos trabalhos de João Cutileiro e de René Bertholo. A próxima será da autoria de Lira, com memórias de Moçambique, a preto e branco. As noites são, ocasionalmente, reservadas a serões temáticos. Em breve, será a poesia satírica a pairar sobre as Casas do Visconde, espaço construído para a realização de eventos. Na mesma propriedade, prevê-se a abertura de uma casa de chá, onde, por entre livros, se poderão saborear doces caseiros.

Público, 09/07/2001

quinta-feira, 24 de março de 2011

Raúl Solnado e a Vaca Cornélia

Concurso-Divertimento     Neste ano de 77, vigésimo aniversário da RTP, para além de "Gabriela" outro programa de grande entretenimento iria ficar na história da televisão: "A Visita da Cornélia", um concurso-divertimento onde os concorrentes eram as estrelas e onde muitos talentos vieram mesmo a ser descobertos.
   

Raúl Regressa     "A Visita da Cornélia" marcou igualmente o regresso de Raúl Solnado aos ecrãs da televisão. Ele era o rosto do programa que, todas as semanas, oferecia música, provas a serem superadas, estrelas do mundo do espectáculo e tudo num grande ambiente de festa e diversão.
   

Um belo par     Para além do regresso de Raúl Solnado, "A Visita da Cornélia" teve ainda o condão de fazer regressar uma colaboração de ouro, juntando Raúl, um homem cheio de talento na apresentação e representação, a Fialho Gouveia, um grande profissional de televisão. Juntos, fizeram d'"A Visita da Cornélia" um grande espectáculo.
   

Por à Prova     Os temas do concurso eram: Cultura Geral, Código da Estrada, Constituição Portuguesa e Direitos do Homem. Mas o que realmente fazia este concurso diferente eram as provas criativas. Os concorrentes mostravam o que valiam em provas de verdadeiro talento e muitos arrebatando a plateia presente e o público em casa.
   

Música e mais música!     Um outro elemento forte d'"A Visita da Cornélia" era possuir um grande toque de espectáculo, resultado da boa orientação e conhecimento do meio de Solnado e Fialho. Daí que a música fosse um elemento fundamental. Nas palavras de Solnado: "(...)uma das características (...) é ter música, muita música: tem um conjunto, tem um cantor convidado em cada sessão, a própria vaca "Cornélia" poderá trazer um presente, como um cantor, uma entrevista, pelo que tudo funciona como 'show'".
   

B.I. da Cornélia     Mas é inegável que um dos factores mais importantes para o sucesso deste concurso foi a própria vaca Cornélia, sempre animada e divertida. Malhada, laço grande ao pescoço e sentido apurado do discurso, era uma vaca diferente, que falava. Uma voz fininha e doce, Cornélia fazia as delícias dos espectadores, até porque era a única capaz de levar Raúl Solnado à birra! Mas que se podia fazer com uma vaca que tanto era vaidosa como simpática!?
   

O júri     "A Visita da Cornélia" distinguiu-se também pelo júri. Cinco pessoas eram convidadas, e davam na altura própria o seu parecer e os seus votos, relativamente às provas dos concorrentes. No final do programa, eram tão conhecidas quanto o próprio Solnado. Os seus nomes: Raúl Calado, publicitário na prática e no professorado; Maria João Seixas, formada em filosofia e pedagoga atenta aos problemas da criança e da mulher; Sttau Monteiro, advogado não praticante, escritor de romances e peças de teatro e jornalista; Maria Leonor, locutora e produtora de rádio, apresentadora e entrevistadora de televisão; e Paulo Renato, actor e encenador.
   

Villaret e Pódio     O Teatro, onde decorriam o programa e por onde muito passou. Os melhores concorrentes foram ficando, de uma semana para a outra, conquistando prémios e popularidade. No final, o pódio teve três nomes: em 3º lugar, Rui Guedes; em 2º José Fanha; e o grande vencedor Vasco Raimundo.
   

Críticas... boas     O "Expresso" dedicou mesmo 4 págs. para explicar o porquê do sucesso e do valor da "Visita da Cornélia", mas a boa receptividade crítica estava também nas pessoas que, durante a semana, comentavam o que se havia passado. E a prova final estava nas segundas-feiras à noite, quando o programa passava na RTP e cujas audiências não mentiam quanto à sua popularidade.
   

Para sempre     Apesar de anos depois a "Cornélia" ter voltado à televisão, o facto é que os que viram esta primeira série não a esquecem, até porque foi um grande abalo no cenário não só televisivo em Portugal, como cultural e social. A par com a estreia de "Gabriela", era o nascimento da cultura do espectáculo da televisão.

Site RTP

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Revista Vacavisão



Revista Vacavisão

A revista Vacavisão era publicada às Terça-feiras. O primeiro  número saiu em 21 de Junho de 1977.