quinta-feira, 20 de novembro de 2008

O Júri e a Polémica

"Havia um júri com posições políticas muito diferenciadas. Foi uma ideia-chave, para mostrar que todos podiam conviver, para lá das divergências de opinião", recorda Raul Solnado.

A selecção dos membros do júri foi ainda mais laboriosa do que a dos candidatos, até porque eles iam ficar 26 semanas consecutivas, o que implicava, além do compromisso de disponibilidade pessoal, resistência psicológica para suportar a polémica pública que necessariamente as suas decisões haviam de provocar.
Desse júri histórico, imitado mas nunca igualado, restam dois sobreviventes: Maria João Seixas e Raul Calado. Dos três outros, Maria Leonor, Paulo Renato e Luís Sttau Monteiro, permanece a saudosa memória - no sentido exacto da palavra, pois, infelizmente, dessa presença televisiva não há rasto nos arquivos da RTP. Numa das inúmeras histerias de controlo financeiro de que a história da tv pública é fértil, alguém se lembrou de economizar nas cassetes vídeo e desgravou os programas antigos para as poder reutilizar sabe-se lá em quê.

"A Cornélia deve ser dos únicos programas de serviço público que a RTP fez. Era lúdico e pedagógico ao mesmo tempo e quem o viu sabe que assim foi" - afirma Raul Calado.

O júri foi a âncora do programa, sobre ele recaíam não só as expectativas dos concorrentes, mas dos milhões de espectadores que a ele assistiam. Através dos comentários, da pontuação, da exposição a que se submetiam, os seus membros tornaram-se no "bode expiatório" dos cronistas, colunistas, analistas, jornalistas e de tudo o mais que era a comunicação social. As decisões de cada um dos jurados era escalpelizada ao ínfimo pormenor, à procura do que saltava à vista: que pensavam pela sua cabeça e, por isso, expressavam pontos de vista diferentes.

Na versão brasileira do programa, à semelhança dos combates de luta livre, para estabelecer um clima de polémica junto do público, um dos membros do júri vestia a pele do "mau", enquanto outro era o "bonzinho". Solnado ensaiou a fórmula e chegou a aliciar Paulo Renato, actor profissional, para desempenhar esse papel de "mau", o que o deliciou. Mas ao fim de duas ou três sessões, Renato foi dizer ao animador do programa que era um desempenho impossível - a dinâmica criada pelos concorrentes, pelo público e pelos outros membros do júri tornava supérflua essa intervenção. Por isso, ele, Paulo Renato, ia passar a ser "ele próprio".

Maria João Seixas recorda que eram os temas de sociedade que mais a motivavam. Por isso, sempre que um concorrente sugeria questões como as do aborto, prostituição e guerra colonial, temas tabus no debate público, ela valorizava-os. Um dia, uma senhora distinta interpelou-a na rua para lhe dizer: "Você traiu-nos."
Raul Calado resume deste modo o papel do júri: "Conseguimos provar que era possível criar uma opinião. Sobre o mesmo assunto era possível assistir à expressão de cinco opiniões diversas e até de uma sexta, que era a de quem nos ouvia, a do espectador."

 Público, 29/09/2002

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"A visita da Cornelia", Raul Calado, Maria João Seixas, Luís Sttau Monteiro, Maria Leonor e Paulo Renato, 11/07/1977. MANUEL MOURA / LUSA PRT LISBON LUSA © 2007 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A.

domingo, 22 de junho de 2008

TV Memória

As recentes alterações à grelha da TV Cabo libertaram espaço para que surgisse no alinhamento do operador da PT um novo canal da televisão pública: a RTP Memória.

A ideia, em teoria, é excelente, se nos lembrarmos das pérolas televisivas que a empresa terá no seu arquivo de décadas. Mas, na prática, o que se vê é de uma pobreza franciscana.

Entrevistas com Manuel Monteiro, quando ele era ainda o recém-eleito presidente do CDS, sem um qualquer enquadramento que justificasse a repetição, jogos de futebol, sem qualquer característica especial, realizados há década e meia, debates sobre a localização da nova ponte sobre o rio Tejo, enfim, até parece que o critério foi começar a repetir sem qualquer critério, assim a modos de fazer uma busca e mandar para o ar os primeiros programas que apareceram em lista de exibição.

Este é um mau serviço aos portugueses que pagam, pelo menos, 20 euros por mês pelo serviço da TV Cabo. Alegará a RTP que esta é, ainda, uma fase experimental e que, num futuro próximo, as coisas vão mudar. Pode funcionar como explicação, mas não convence ninguém.

O período experimental poderia ter sido realizado em canal fechado e ninguém garante que para fazer experiências tem que ser à custa de absurdos como os atrás descritos.

Vamos aguardar que, depois desta desconsideração, se faça luz nos responsáveis pela programação do canal e que, em tempos de exposição real, o panorama mude. Sei lá, com o Tal Canal (Herman José), com o Zip-Zip, com A Visita da Cornélia, com séries que fizeram sucesso (se é que o canal público detém os direitos de reposição).

Uma Péssima Memória - José Manuel Rocha, Público, 19/11/2004

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Os "Heróis" e Os "Casos"

Há quem diga, e Raul Solnado corrobora, que sem Fernando Assis Pacheco a Cornélia não nos teria visitado. Jornalista no "Diário de Lisboa", "coimbrinha", afamado, poeta reconhecido, estava longe de ser uma figura anónima nos meios culturais. Por isso, quando o seu nome surgiu, no primeiro sorteio dos boletins, Solnado teve um sobressalto, pegou no telefone e ligou-lhe:

- Tu concorreste mesmo?
- Sabes, é a minha cunhada. Ela acha que...
- E tu vens?
- Vou.

Solnado respirou de alívio, a primeira barreira fora ultrapassada. Havia o perigo óbvio de o programa-concurso se ficar pelas récitas de finalistas liceais, ou seja, monótonos serões familiares. De resto, ao longo das 26 emissões, muitas foram as que não saíram desse âmbito.

A primeira sessão lançou o concurso, a tal ponto que o Canal da Crítica, de Mário Castrim, que tinha sérias reservas sobre o formato do programa, designadamente quanto à sua configuração competitiva e às intenções propagandísticas, regista entredentes: "Cumpriu-se, logo no primeiro assalto, aquilo que nesta secção foi já apontado relativamente ao concurso: a sua capacidade para interessar a audiência."
A dupla Assis Pacheco-Carminho Ruella Ramos apontou um rumo, que não mais seria abandonado, reforçado pelo desempenho de um outro par concorrente, Isabel e Diamantino Santos, de Matosinhos, que valeu pela "simpatia e simplicidade", na apreciação de Castrim.

Assis Pacheco trouxe ao programa a exigência intelectual, a par de uma imensa alegria de viver. Ficou célebre a sua capacidade de introduzir a poesia nos momentos mais inesperados, iluminando de sensibilidade provas que pareciam insonsas. Foi o caso da prova de poesia, onde os concorrentes tinham que glosar o mote: "Tomei-lhe o gosto e depois." Daqui fez Assis Pacheco uma quadra que diz o seguinte: "Sem saber que eras vinho// tomei-lhe o gosto. E depois// dóis menos do que me dóis// quando o gosto é poucochinho."

O problema é que ele de modo algum escondia a sua inclinação política de esquerda e isso gerou uma enorme polémica, com grande satisfação dos autores do programa, que se deram conta de ter a aposta ganha. O despique caiu na praça pública, ficando na memória o que se estabeleceu entre o Canal da Crítica, de Mário Castrim, e o "Expresso", de Vasco Pulido Valente e Maria João Avillez, a propósito do confronto entre Assis Pacheco e Gonçalo Lucena, na sexta sessão, que foi para o ar a 11 de Julho. Cada programa era gravado uma semana antes, no Teatro Villaret, com o público a ter que pagar 50$00 pelo bilhete, o que não impedia que os 180 lugares disponíveis estivessem sempre ocupados.

Sabia-se, por isso, que a emissão desse 11/7 ia ser excepcional. Formaram-se claques e dividiram-se as opiniões. Castrim deitou abaixo Lucena: "Pratica ao nível da escola (...). Sabe da mecânica, mas não sabe do segredo. Repete, não inventa" ["Diário de Lisboa" de 12/7/77]. Na edição do "Expresso" desse sábado, 17/7/77, é Maria João Avillez quem desqualifica Assis Pacheco. Trata-o desprimorosamente de "novo herói" e enquadra-o num ambiente pequeno- burguês, onde a mulher cozia meias e as filhas fabricavam marionetas, que o pai depois usava na Cornélia, na prova de teatro.

Gonçalo Lucena perdeu por uma unha negra, mas num volte-face acabou por subir ao pódio. Num gesto teatral, Assis Pacheco entendeu que o lugar estava bem entregue e deixou o programa.
Muitos futuros nomes do espectáculo passaram então pela Cornélia, com destaque para Tó Zé Martinho, que fazia par com a mãe. Mas Lucena estava de pedra e cal, mesmo quando Pitum e Maria Lira fizeram "um excelente serão" na décima sessão, merecendo no "Diário de Lisboa" título de primeira página: "Bisneto de Alfredo Keil levou burlesco à Cornélia."

Até que na 12ª sessão (22/8) apareceu um pequeno barbudo desgrenhado, de olhar tímido, de seu nome José Fanha, que destronou Lucena e relançou a polémica esquerda-direita.

O seu rival foi Rui Guedes e nem mesmo o "glamour" do par dançarino Lucilina-Ninéu Sobreiro conseguiu desfazer a tensão política, que voltou a subir até que na 23ª sessão apareceu Vasco Raimundo. Ele não só desempatou o confronto Fanha/Rui Guedes, como acabou por ocupar o pódio, de onde não mais saiu, até à finalíssima de 28 de Novembro de 1977.

Público, 29/09/2002

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"A visita da Cornelia", 11/07/1977. MANUEL MOURA / LUSA PRT LISBON LUSA © 2007 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A.