sábado, 29 de setembro de 2007

O Concurso Que Brincava com Coisas Sérias

Segunda-feira, 6 de Junho de 1977. "O Que Diz Molero", de Dinis Machado, era a referência no Sete.Sete, magazine literário do "Diário de Lisboa". Mário Soares, primeiro-ministro do I Governo constitucional, dizia "não às alianças". Recusava tanto a "convergência democrática", de Sá Carneiro e Freitas do Amaral, como a "maioria de esquerda, para sair da crise", de Álvaro Cunhal. As atenções, porém, centravam-se no serão televisivo. Ia estrear-se A Visita da Cornélia, logo a seguir à telenovela Gabriela, a do primeiro amor que nunca se esquece.

Era uma aposta de risco, mas "quem quer peixe molha o cu", atalhava Raul Solnado, calando os que apontavam os pontos fracos do programa, que ele arquitectara com Fialho Gouveia.

Era uma ideia que viera do Brasil, adaptada à situação que se vivia em Portugal, de profunda ressaca política. A normalidade trazida pelo 25 de Novembro de 1975 impunha-se a custo. Não havia meio termo, estava-se de um lado ou do outro, esquerda ou direita.

Assim se passava a vida nas conversas dos cafés, nas páginas dos jornais e nos comícios quase todas as semanas. O quotidiano era diferente: trabalhava-se muito e ganhava-se pouco. Falava-se do FMI como as mães falam dos papões aos filhos pequenos. "A gaivota" já não voava e dera lugar ao "Sobe, balão, sobe", que em verdade pouco subia. Vivia-se num clima de tensão e de crispação pouco recomendável. Havia quem continuasse a preconizar o confronto armado e a ver a democracia como um interregno.

É nesse contexto que surge a Cornélia, uma vaca leiteira, que esteve para se chamar Margarida - que, francamente, "não era nome de vaca, e ponto final, fica Cornélia", diz Solnado. Fialho Gouveia dá uma explicação mais elaborada: "Tinha que ter peso e ao mesmo tempo sonoridade. Achamos que Cornélia soava a feminino do símbolo cornudo da espécie."

A mascote podia ser outra, mas porque não uma pachorrenta vaca? É certo que a sua corpulência atrapalhava a movimentação dentro do "plateau", instalado no Teatro Villaret, mas a concepção do programa, de uma ponta à outra, era feita dessas complicações com que se enche a vida, vá lá saber-se porquê, e sem as quais já não tem gosto vivê-la. Em resumo, era preciso humanizá-la, torná-la uma presença familiar, e, naturalmente, a Cornélia passou a falar, com uma voz meiga, quase ternurenta, que lhe deu Ana Mayer. Num sinal de garridice feminina puseram-lhe um laçarote à volta do pescoço e foi assim que ela entrou no programa televisivo mais visto nos lares portugueses. Três a cinco milhões de espectadores, que naquele tempo não havia "share" nem audimetria.

O concurso e o resto

A versão brasileira assentava na ideia de um júri que detém o poder de conferir a glória a um e não a outro, à semelhança dos temperamentais deuses do Olimpo - irascíveis ou sentimentais, intelectuais ou broncos, mesquinhos ou generosos. Os espectadores, naturalmente, dividiam as suas simpatias pelos concorrentes e no momento da pontuação vibravam de alegria ou indignação, face aos comentários e arbitrária pontuação dos jurados.

O golpe de asa de Solnado e Fialho Gouveia foi dar a volta ao concurso e transformá-lo num "serão da província", à Júlio Dinis, onde o confronto de opiniões, mesmo irredutível, não implica, obviamente, a neutralização de um dos contendores. Cada um fica na sua casmurrice, que amanhã é outro dia e a vida prossegue.

Esta preocupação de estabelecer as diferenças transparecia na organização do concurso, um autêntico exame de aptidões, que deixava implícito estar a perfeição no equilíbrio de todas as tendências reunidas.
As provas dividiam-se por três grupos disciplinares, que valorizavam a aprendizagem, a destreza e a criatividade. No primeiro, os concorrentes deviam demonstrar, antes de tudo, os seus conhecimentos de cultura geral. Havia um tema para cada sessão, tanto podia ser um escritor, Cesário Verde, por exemplo, como uma região, um país ou um assunto histórico. Passavam ainda pelo Código da Estrada, pela Constituição Portuguesa e pelos direitos do homem.

O segundo grupo de provas aferia da habilidade manual, posta à prova num jogo da feira, onde com uma bola se têm de derrubar os bonecos expostos numa prateleira. Foram muitos os que falharam vergonhosamente neste capítulo, onde a estrela incontestável foi Pelé. Vedeta convidada para um dos programas, provou que não precisava das mãos e, fazendo saltitar a bola na ponta do pé, rematando no momento certo, ele deitou abaixo um, dois, três bonecos... Um delírio.

Por fim, vinham as provas criativas, onde os pares de concorrentes exibiam os seus dotes na dança, no canto, no teatro e dispunham de um tema livre, onde podiam expandir-se à vontade.

Mais do que um concurso, era um verdadeiro exame de cidadania. Havia um júri de pré-selecção, Pedro Bandeira Freire e José Duarte Tinoco, que dos 30 candidatos, tirados à sorte através dos boletins enviados, retinham apenas três, os que iam fazer o serão das segundas-feiras, durante duas animadas horas.

António Melo, Público, 29/09/2002

imagem: "A visita da Cornelia", 110/07/1977. MANUEL MOURA / LUSA PRT LISBON LUSA © 2007 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A.

A Visita da Cornélia
Início 6 Junho 1977
Fim 28 Novembro 1977 (com mais duas sessões extra-concurso no Porto)
Horário Segunda-feira, a seguir à telenovela
Arquivo A RTP não tem registos