sexta-feira, 24 de abril de 2015

Maria João Seixas

Começou por distribuir pontos e simpatia num concurso que fez história na RTP, "A Visita da Cornélia". O concurso, um fenómeno de popularidade num tempo em que ainda não se falava em "shares", em que os concorrentes ganhavam pouco, mas esbanjavam criatividade, tinha um júri de cinco elementos. Entre eles estava Maria João Seixas. Os espectadores familiarizam-se com aquela senhora jovem, de cabelo curto e aparência frágil, que, nas votações, não perdia uma oportunidade de confessar a sua saudade de África. Afinal, Maria João Seixas nasceu em Moçambique, de onde saiu para estudar Filosofia, em Lisboa. Mas a costela de comunicadora foi mais forte que a da filósofa. Ligada aos audiovisuais, dirigiu o Departamento de Produção de Filmes para Emigrantes da Secretaria de Estado da Emigração. Voltou ao pequeno ecrã em 1994 e 1995, como apresentadora das séries "Quem fala assim..." e "Sempre aos domingos". Entre 1974 e 1976, Maria João Seixas foi secretária e adjunta do major Vítor Alves, em vários Governos Provisórios. Assessorou depois Maria de Lurdes Pintassilgo, na Comissão da Condição Feminina. Recentemente, foi assessora para os assuntos culturais do Primeiro-Ministro António Guterres, lugar que também já abandonou, talvez porque a cultura fala mais forte.

IC / Carlos Barbosa de Oliveira

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Crónica de Daniel Luís

Ontem, primeiro dia do mês de Junho, comemoraram-se não um, mas sim dois dias mundiais de grande relevância: o Dia Mundial da Criança e o Dia Mundial do Leite. Não é a toa que estes dias se comemoram na mesma data. Está mais que provada a importância do leite, quer na concepção de uma criança, quer na sua alimentação. E não estejam já para aí a chamar-me nomes escabrosos, porque um casal de adultos que queira praticar o coito para gerar uma nova vida, tem de beber leite para fortalecer e enrijecer os ossos.

Para assinalar esta láctea e pueril data, o espaço “Dissidências” do Correio do Minho tem a honra de publicar, num exclusivo mundial (e quiçá, galáctico) a entrevista conjunta realizada a Peter Pan e à vaca Cornélia:

Daniel Luís: Quero agradecer a vossa presença nesta data tão importante para a humanidade, pois como dizia Eugénio de Andrade, “Se há na Terra um reino que nos seja familiar e ao mesmo tempo estranho, fechado nos seus limites e simultaneamente sem fronteiras, esse reino é o da infância”.

Cornélia: E eu? Também quero uma citação… Muuuuuuu.

Daniel Luís: Não seja por isso: “Se há na Terra um reino que nos alimente e, ao mesmo tempo, nos dê noites de luxúria e prazer, esse reino é o das vacas”, by moi même.

Cornélia: Obrigado. Já me sinto mais confortável.

Daniel Luís: Sente-se confortável porque o Peter Pan lhe está a puxar as tetas. Pára já com isso seu fedelho! Já tens idade para ter juízo!

Peter Pan: Idade eu? Juízo? Mas drogas-te ou quê? Então não sabes que eu sou um pequeno rapazinho?

Daniel Luís: Podemos começar precisamente por esse ponto. Porque é que, apesar dos teus 108 anos de idade, te recusas a crescer?

Peter Pan: Porque ser adulto é muito aborrecido… ter que trabalhar, ter que pagar impostos e, principalmente, ter que ver o “Prós & Contras” da Fátima Campos Ferreira… que horror.

Daniel Luís: E aposto que se fosses adulto, sentirias também a falta das tuas aventuras mágicas, certo?

Peter Pan: Isso não me preocupa. Pelo que vejo, muitos adultos vivem aventuras mágicas, principalmente os governantes do PS… que vivem aventuras mágicas com TGV’s e com aeroportos, num país à beira da bancarrota.

Daniel Luís: Muito bem observado para uma criança. E a vaca Cornélia o que tem a dizer sobre o Dia Mundial do Leite?

Cornélia: Na minha qual idade de bovina, penso que os direitos das vacas leiteiras não têm sido devidamente salvaguardados.

Daniel Luís: Quer explicar melhor?

Cornélia: Acho uma crueldade sermos mungidas com aparelhos de sucção eléctrica. E a culpa é do Cavaco Silva porque disse que nós tínhamos prazer com esses aparelhos. O Presidente da República não pode generalizar estas coisas. Se a vaca do Cavaco gosta de ser sugada por aparelhos, o problema é dela. Quanto mais não valem umas mãos habilidosas a acariciar as nossas tetas… Muuuuuuu…

Daniel Luís: Está a querer dizer que as vacas não se importam de dar leite aos homens, desde que os homens lhes dêem prazer ao extrair o leite?

Cornélia: Exactamente! Se querem leite, que sejam meiguinhos connosco. Eu até acho que em vez do Dia Mundial do Leite, deveria ser instituído o Dia Mundial das Vacas, porque sem vacas, este mundo não tem piada… Muuuuu…

Daniel Luís: Menino Peter Pan, é mesmo assim como diz a Cornélia? Conseguias viver num mundo sem vacas?

Peter Pan: Se eu conseguia viver sem vacas? Conseguir, conseguia, mas não era a mesma coisa… Adoro apertar as tetas das vacas...

Daniel Luís: Suponho então que gostas muito de leite. Preferes o leite ultrapasteurizado de pacote ou o leite do dia?

Peter Pan: Estás a brincar comigo ou quê? Eu bebo leite directamente da teta da vaca.

Daniel Luís: E as vacas deixam?

Peter Pan: Claro que sim! É a vantagem de ser uma criança fofinha. Se eu fosse adulto, provavelmente as vacas já não me deixariam mamar nas suas tetas.

Daniel Luís: Não sei não. Olha que és capaz de estar bem enganado, meu rapaz. Para concluir esta entrevista, gostaria que dissessem o que vos apetecer.

Peter Pan: Eu não gostaria de ser adoptado por um casal gay, mas adorava ser adoptado por um casal de lésbicas porque adoro puxar tetas. Que cheiro! Quem foi que se peidou?

Cornélia: Opppsss… fui eu. Desculpem-me, mas tenho que me peidar 300 vezes por dia. Sou vaca…
Daniel Luís: Ok, tudo bem. O que gostaria de dizer, Cornélia, para terminar esta entrevista?

Cornélia: Eu gostaria muito que a revista “Vacavisão” fosse reeditada e gostava também de ter um jantar romântico com o José Cid.

Nota final dirigida ao estimado leitor: Directamente da teta da vaca ou através de um pacote nada sexy, cuide dos seus ossos. Beba leite à bruta! Muuuu…

Daniel Luís / Correio do Minho

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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Fernando Neto

Tive o privilégio de ser pegado ao colo por ele no Parque Mayer onde eu morava e ele representava. Ele chamava-me o “Neto dos Matrecos” devido ao meu estatuto de campeão infantil do Parque Mayer.

Encontrei-o mais tarde em 1977 na “ Visita da Cornélia” como concorrente eliminado na pré selecção mas que mesmo assim “obrigou” o José Fanha a ler em sessão de concurso um soneto meu intitulado “A Preguiça”. Um dos momentos mais marcantes da minha juventude.

A última vez que estive com ele foi também num concurso mas aí como concorrente seleccionado no “Vamos Caçar Mentiras” um concurso no âmbito da 17ª Exposição de Arte Ciência e Cultura.

Ficam na minha mente o sorriso de menino aliado aos olhos de malandro.

Enquanto ele não vem façam o favor de divulgarem a vida saboroso que ele viveu e os ensinamentos que nos deixou.

Morreu Raul Solnado? Não, apenas se ausentou por uma temporada.

Fernando Neto, Canas Em Peso, 10/08/2009

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Assis Pacheco em tempo de tributo

Fernando Assis Pacheco publicou o seu primeiro livro de poesia, "Cuidar dos vivos", em 1963. Escreveu ainda "A musa irregular", "Trabalhos e paixões de Benito Prada" (romance), "A bela do bairro e outros poemas" e "Memórias de um craque", entre outros títulos.

Como jornalista trabalhou no "Diário de Lisboa", no "República" e em "O Jornal". Foi chefe de redacção do "JL" e director-adjunto do "Se7e".

Ficou conhecido no país inteiro no final dos anos 70, quando participou no programa televisivo "A visita da Cornélia".


JN, 28/01/2007

sábado, 22 de dezembro de 2012

José Fanha

Foi na "Visita da Cornélia", Agosto de 77, que José Fanha declamou pela primeira vez este poema "que tem sido uma ponte calorosa com tanta, tanta gente".

EU SOU PORTUGUÊS AQUI

Eu sou português
aqui
em terra e fome talhado
feito de barro e carvão
rasgado pelo vento norte
amante certo da morte
no silêncio da agressão.

Eu sou português
aqui
mas nascido deste lado
do lado de cá da vida
do lado do sofrimento
da miséria repetida
do pé descalço
do vento.

Nasci
deste lado da cidade
nesta margem
no meio da tempestade
durante o reino do medo.
Sempre a apostar na viagem
quando os frutos amargavam
e o luar sabia a azedo.

Eu sou português
aqui
no teatro mentiroso
mas afinal verdadeiro
na finta fácil
no gozo
no sorriso doloroso
no gingar de um marinheiro.

Nasci
deste lado da ternura
do coração esfarrapado
eu sou filho da aventura
da anedota
do acaso
campeão do improviso
trago as mãos sujas do sangue
que empapa a terra que piso.

Eu sou português
aqui
na brilhantina em que embrulho
do alto da minha esquina
a conversa e a borrasca
eu sou filho do sarilho
no gesto desmesurado
nos cordéis do desenrasca.

Nasci
aqui
no mês de Abril
quando esqueci toda a saudade
e comecei a inventar
em cada gesto
a liberdade.

Nasci
aqui
ao pé do mar
de uma garganta magoada no cantar.
Eu sou a festa
inacabada
quase ausente
eu sou a briga
a luta antiga
renovada
ainda urgente.

Eu sou português
aqui
o português sem mestre
mas com jeito.
Eu sou português
aqui
e trago o mês de Abril
a voar
dentro do peito.

http://queridasbibliotecas.blogspot.pt/2007/10/eu-sou-portugus-aqui.html

Foi lançado em disco. 

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Vaca Margarida

“Zip-Zip” terminou no fim de 1969, mais precisamente em 29 de Dezembro. Raul Solnado fazia então dois espectáculos por dia. Ao sábado era a lufa-lufa das gravações do “Zip-Zip” no Teatro Villaret, realizadas sem ensaio prévio. Na TV participava nas entrevistas e fazia, também, rábulas, que eram muito apreciadas pelo público. A seguir, rumava ao teatro. Mas “Zip-Zip” tinha que ter um fim. “Queríamos que o programa não cansasse”, revela hoje Solnado. Os protagonistas concluíram que estava na altura certa de dar por finda uma experiência que se encontrava em plena fase de êxito.

 Solnado “inventou” o concurso “A Visita da Cornélia”, juntamente com Fialho Gouveia, durante um jantar. A vaquinha Cornélia, que ajudava Raul Solnado a manter a animação no concurso “A Visita da Cornélia”, exibido pela RTP em 1977, estava inicialmente para se chamar Margarida. Mas como em Portugal há muitas Margaridas, teve que ser escolhido outro nome, para não ferir susceptibilidades.

Solnado conta-nos esta curiosidade sabendo do que fala. De facto, a ideia de “A Visita da Cornélia”, um concurso em que pela primeira vez os participantes eram convidados a fazer prova da sua habilidade nas artes da representação e da interpretação musical, brotou do próprio Raul Solnado, em conjunto com Fialho Gouveia. Foi durante um jantar num conhecido restaurante lisboeta, “O Polícia”, conforme Solnado recorda hoje, que os dois conhecidos apresentadores televisivos cozinharam “o esquema do programa”. Os resultados da confecção revelaram-se brilhantes. A qualidade e talento de alguns dos participantes foi de tal ordem que os telespectadores falavam durante toda a semana no episódio anterior e não dispensavam a exibição do seguinte.

Segundo Solnado, a ideia surgiu pela necessidade, sentida por ele próprio e por Fialho Gouveia, de “fazer um programa que incentivasse o convívio da generalidade das pessoas”. Desejavam ambos criar um produto televisivo que pudesse constituir um virar de página sobre as feridas abertas pelos tempestuosos acontecimentos políticos de 1974-5. “Cumprimos os nossos objectivos”, conclui hoje Solnado, cujas rábulas com a vaquinha Cornélia constituíam uma das mais-valias do inspirado programa.

Antes do arranque, o título do concurso constituía um verdadeiro problema. Solnado não se recorda hoje como surgiu o nome de Cornélia para substituir o de Margarida. “Foi ao calhas!”, arrisca. E conta que uma vez, quando o concurso já estava em exibição, foi interpelado por uma alemã que vivia no Porto, que lhe disse: “O senhor mudou a minha vida!” O nome dela: Cornélia. Estava bem disposta e muito feliz por ter o nome de uma personagem muito popular de um programa muito popular, apresentado por um actor muito popular. Em “A Visita da Cornélia”, o apresentador mantinha um diálogo muito animado com uma vaquinha.

José Luís Feronha / Correio da Manhã, 05/12/2002